Artigo Executivo
Tecnologia do Uso da Informática - Visão 1984
por Guy Manuel
APRESENTAÇÃO É COMISSÃO DE ECONOMIA DO SENADO FEDERAL
Maio, 1984
Eduardo Guy de Manuel
Diretor Presidente
ASSESPRO - PR/SC
SIGMA - Consultoria e Planejamento
DATASERV - Processamento de Dados
1 - INTRODUÇÃO
Assiste-se, hoje, no Brasil, a um grande debate em torno da informática e de um modelo institucional para vermos sedimentada uma indústria moderna, competitiva e, sobretudo, nacional.
A discussão já transcendeu o foro da comunidade composta por profissionais, cientistas e empresários do setor, e, dada sua importância, já é debatida em nÃvel de Congresso Nacional, de associações de classe e mesmo do público, cada vez mais envolvido e interessado no assunto.
Nós, que representamos o segmento das empresas privadas nacionais, dedicadas é prestação de serviços em bureaus, desenvolvimento e comercialização de software, treinamento e consultoria, achamos oportuno o convite da Comissão de Economia do Senado Federal para prestarmos nosso depoimento.
Por congregarmos o conjunto de empresas e profissionais com a experiência no ramo de informática, pretendemos aqui deixar nossa colaboração, analisando o que se passa neste setor, questionando alguns enfoques adotados e, sobretudo, apresentando ao debate uma série de sugestões.
Reinstalada no Brasil a saudável prática do debate democrático, acreditamos pelo simples fato de hoje aqui estarmos, que na formulação da polÃtica de informática, os pontos de vista de todas as correntes representativas serão consideradas.
Com essa premissa básica atendida, estaremos acertando o passo para dominarmos o amplo espectro tecnológico da informática, começando por aquele onde já, há muitos anos, demonstramos competência.
2 - O QUE É "TECNOLOGIA DO USO"?
Acreditamos que todos conheçam o PRODASEN - o Serviço de Processamento de Dados do Senado Federal. É possÃvel, mesmo, que muitos dos presentes já tenham feito uso das informações contidas em seus bancos de dados, sem sequer saber onde está o computador, seu porte, quem o construiu, etc..
No entanto, a colocação de informações é disposição dos Congressistas, de forma rápida e confiável, envolve uma soma considerável de investimentos, trabalho, e, sobretudo TALENTO.
Definimos o problema - como prestar informações sobre leis, projetos de lei, jurisprudência, por assunto, autor, época, etc.. democraticamente reduzindo margens de erro, de modo a aumentar o acervo das informações disponÃveis ao legislador - temos que buscar uma forma adequada de resolve-lo.
No caso do PRODASEN, não é difÃcil imaginar o esforço despendido para definir-se como juntar de forma consistente todas as informações, antes dispersas por vários arquivos e publicações, elaborar programas para que o computador as aceitasse e depois tivesse a capacidade de disseminá-las da forma imaginada, como fazer para atualizar as informações constantemente, como capacitar o usuário (os congressistas e o público em geral) a fazer bom uso dos dados, como, onde, para quem prestar essas informações, como mante-las disponÃveis, seguras, imunes, tanto quanto possÃvel, a fatores adversos e imprevistos.
Se formos analisar os recursos humanos e financeiros alocados historicamente ao PRODASEN, veremos que a parcela que cabe ao computador, propriamente dito, é minoritária, quer em valor, quer em importância real. Podemos até afirmar que uma solução análoga poderia ser dada usando outra marca ou modelo de computador.
O computador, senhores, é o meio fÃsico para o processo de informatização do Congresso. Não é ele que, sozinho, mantém os arquivos, recupera informações e traz todos os benefÃcios que são hoje, facilmente determináveis.
Ocorreu, e ocorre, no PRODASEN, o desenvolvimento de uma TECNOLOGIA DO USO desses recursos de máquina, e todo este trabalho é creditado a um conjunto de técnicos, analistas, programadores, operadores - e de usuários dos serviços, que através de novas demandas, crÃticas e sugestões, ajudam no aprimoramento de todo o processo. Este tipo de tecnologia, realmente importante, é hoje gerada e disseminada em milhares de instalações de pequeno, médio e grande porte, por todo o paÃs. E os benefÃcios colhidos são preponderantes no esforço nacional de aumento de produtividade e qualidade de vida.
Voltando ao exemplo do PRODASEN, os Senadores e Deputados têm hoje, mais rapidamente, informações de que precisam para seus projetos, emendas e trabalhos legislativos em geral. Sobra-lhes mais tempo para criar, dialogar, aperfeiçoar as instituições e melhor atender a seus eleitores.
Este processo, de uma forma ou de outra, deve acontecer em todas as instalações que se utilizam de um computador. E nós, no Brasil, desenvolvemos - técnicos e usuários - TECNOLOGIAS DE USO da informática em qualidade equiparável à s melhores do mundo. No entanto, pouca atenção vem sendo atribuÃda ao processo como um todo. O computador, para a maioria, é a informática, e ocupa injustamente um trono que não lhe cabe.
Se não compreendermos este processo, ao formularmos uma polÃtica de informática, a sim, ficaremos a reboque, no quadro mundial, em termos tecnológicos.
O computador, é medida que evolui tecnologicamente, coloca mais e mais capacidade de manipular informações nas mãos do usuário. Saber fazer bom uso dessa capacidade é que vai, em realidade, dar a grande alavancagem na soluçõo de parte ponderável dos problemas que hoje nos afligem.
PoderÃamos dar mais alguns exemplos:
- Não é o computador, de per si, que efetua reservas de passagens de companhias aéreas;
- Não é o computador, de per si, que auxilia o médico na obtenção de tomografias do cérebro;
- Não é o computador, de per si, que efetua transações em bancos e instituições financeiras;
- Não é o computador, de per si, que controla sofisticados processos industriais;
- Não é o computador, de per si, que auxilia crianças em idade pré-escolar no desenvolvimento de raciocÃnio lógico, na alfabetização e na introdução à matemática.
- Não é o computador, de per si, que resolve os problemas contábeis, de folha de pagamento, de controle de estoques e faturamento de uma empresa;
- E não é o computador, de per si, que torna as garras do leão do Imposto de Renda cada vez mais afiadas contra sonegadores e a favor de maior justiça social.
Existem pessoas criando e mantendo uma TECNOLOGIA DE USO desta ferramenta fantástica; são milhares hoje, milhões amanhã, de empregos especializados que garantirão ao Brasil o acesso é fase pós-industrial de nossa sociedade.
Este já e, e será cada vez a parte mais vital de um mosaico ainda mal compreendido entre nós - a informática - e já bem entendido e estimulado nas nações mais desenvolvidas.
É preciso que fique claro que os paÃses que melhor dominarem o uso dos recursos da informática serão os mais capazes de tornar suas economias mais competitivas e, também, de melhorar a qualidade de vida do seu povo.
A Informática, na década de 90 será a indústria mais importante no mundo. O projeto e fabricação de computadores terá grande peso especÃfico, mas será, econômica, estratégica e politicamente menos relevante que o seu bom uso.
O barateamento do instrumento computador está fazendo crescer exponencialmente o número de usuúrios e a diversidade de aplicações, em todo o mundo, a ponto de estar próximo o dia quando o computador será utensÃlio tão comum quanto o televisor ou o telefone (aliás, estará integrado aos dois).
Urge que dominemos suas diversas formas de uso, adequadas ás realidades do Brasil, mas ao mesmo tempo com vistas ao mercado mundial, pois temos experiência e capacitação para exportar TECNOLOGIA DO USO DA INFORMÃTICA.
3 - AS DIVISÕES DA INFORMÃTICA
Já existem vários compêndios e tratados sobre informática. Classicamente, divide-se a informática em duas partes:
- O HARDWARE, que é o maquinário, ou o computador propriamente dito, com todos os acessórios, e
- O SOFTWARE, ou os programas necessários a faze-lo funcionar e interagir com o usuário ou o operador.
Na verdade, se considerarmos a informática de modo mais abrangente, em especial com o conceito da TECNOLOGIA DO USO temos que refletir ainda sobre:
- A FORMAÇÃO DO USUÃRIO, para que ele possa usar mais e melhor os recursos disponÃveis, bem como formular adequadamente os problemas, e, por conseqüência, dominar a informação.
- OS LIMITES LEGAIS DO USO, para que tenhamos garantidos entre outros, a propriedade intelectual e industrial dos processos, as liberdades e os direitos básicos do cidadão e da coletividade, evitando-se a geração de uma casta de todo-poderosos, aqueles que dominam as informações versus a maioria controlada.
- A PESQUISA BÃSICA, visando resolver problemas de realidade brasileira que poderiam ser melhor equacionados com o uso de recursos informatizados, como saÃde pública, educação, transporte, etc.
- A EDUCAÇÃO BÃSICA, que tem que ser revista, levando em conta a evolução da informática.
Não custa lembrar que, nos Estados Unidos, a maioria das escolas primárias já usa recursos computadorizados para a educação de seus alunos, familiarizando as crianças americanas com uma ferramenta básica para os nossos dias.
Estamos vendo criar-se uma vantagem competitiva ainda não mensurável, mas que sentiremos com grande impacto, quando a geração nascida nos anos 70 estiver no mercado de trabalho; eles serão jovens tão acostumados ao uso do computador como são hoje os nossos filhos com o televisor ou o rádio.
O Mercado Mundial gastará em 1990, 1 TRILHÃO DE DÓLARES em HARDWARE, SOFTWARE e SERVIÇOS, e, na virada do século, este volume deve crescer para 5 TRILHÕES.
Hoje, os números estão em torno de U$ 250 BILHÕES, onde o HARDWARE - a máquina - é ainda a maior parcela. Ocorre porém, que as vendas de hardware crescerão a uma média composta de 15% ao ano, enquanto o software e serviços crescerão a uma taxa de 30% ao ano.
O barateamento do HARDWARE, em especial devido ao uso de semicondutores com circuitos mais densos e a grande escala de produção diversificará, por conseqüiência, a utilização do computador, requerendo uma variedade infinitamente maior de SOFTWARES.
Recentemente, um gerente de desenvolvimento da HEWLETT-PACKARD, o segundo maior fabricante mundial de minicomputadores (HARDWARE), declarou textualmente: "É possÃvel que um dia nós tenhamos que dar de presente o HARDWARE para podermos vender o SOFTWARE�.
Ou seja, vamos dar meios para podermos vender as soluções.
É, isto, senhores, que em rápidas pinceladas, está se delineando no horizonte mundial. Como veremos a seguir, o que ocorre no Brasil, hoje em dia, é exatamente o contrário
4 - A POLÃTICA NACIONAL DE INFORMÃTICA
4.1 - UMA AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO ATUAL
Vamos procurar discutir alguns tÃpicos que nos parecem relevantes, na situação atual da informática brasileira, é luz das diretrizes oficiais e das realidades de mercado, para tentar demonstrar algumas distorções existentes e que precisam ser urgentemente revistas.
Em primeiro lugar é patente que a PNI se confunde, na sua essência com uma PolÃtica Nacional para a Fabricação de Computadores (HARDWARE).
A reserva de mercado cuida de manter em mãos de empresas 100% nacionais a fabricação e comercialização de micros, minis e agora, os superminicomputadores, além de seus periféricos.
Existem ainda restrições à importação de computadores médios, grandes e muito grandes, e algumas multinacionais do ramo fabricam esses equipamentos no paÃs. Através do controle seletivo de guias de importação e de acordo com esses fabricantes para a exportação de seus produtos chega-se a uma definição sobre a quantidade de computadores dessas multinacionais a serem ofertados no mercado interno.
Existem, é claro, compromissos de Ãndices de nacionalização crescentes, quer para as empresas nacionais, quer para as transnacionais.
Espera-se também, que as empresas nacionais capacitem-se tecnologicamente para ocupar novos segmentos de mercado, de forma que, a médio prazo, o mercado esteja quase totalmente por eles assistido.
As linhas gerais da PNI não esgotam-se aÃ, mas a ênfase é dada à fabricação de HARDWARE (computadores, periféricos e componentes).
Fabricar computadores não significa usá-los bem.
Apresentações anteriores perante esta Comissão já mostraram que o usuário final paga mais caro pelo computador, no Brasil, do que o equivalente no exterior.
O nÃvel de atualização tecnológica do HARDWARE, não está muito distante no tempo, do que há de mais moderno (de 2 a 5 anos) mais isto representa uma ou duas gerações de computadores.
Por exemplo: Enquanto o Brasil hoje se encontra no auge da utilização de microcomputadores de 8 bits, no exterior estas máquinas já foram suplantadas pelas de 16 bits, mais modernas, capazes e baratas, e já entram no mercado os micros de 32 bits
Os fabricantes de HARDWARE nacionais, por outro lado não se aperceberam da necessidade de fortalecer a indústria de SOFTWARE e serviços, seus parceiros.
O conceito de que o SOFTWARE não é importante é amplamente divulgado por vendedores de equipamentos, que com freqüência oferecem programas de aplicações gratuitas aos usuários, ou quando muito, a preços aviltados.
A "pirataria", ou cópia ilegal de SOFTWARE, em especial os importados para microcomputadores, prolifera, à falta de legislação e controles mais eficazes, em detrimento das empresas nacionais de serviços.
O "lobby" das empresas de HARDWARE - nacionais e multinacionais - além do interesse dos grandes usuários privados e estatais - faz a PNI estar sempre com suas luzes dirigidas para o Computador.
E as milhares de pequenas e mÃdias empresas de SOFTWARE e serviço, que deveriam ser um dos pilares da informática no paÃs, vão sendo marginalizados e enfraquecidas, com nefastas conseqüências para o mercado de trabalho e para a vitalidade empresarial deste segmento que ganha, a nÃvel mundial, cada vez mais importância.
O resultado prático é que, nas economias desenvolvidas, cerca de 40% do que é gasto em SOFTWARE e servi�os é comprado de empresas privadas especializadas no ramo; no Brasil, paÃs carente de estatÃsticas, estima-se que este total não ultrapasse os 5% dos dispêndios.
Nos Estados Unidos, dezenas de empresas de SOFTWARE e serviços já ultrapassaram a marca de US$ 100 milhões em vendas anuais, e algumas estão rondando a faixa dos US$ 1 bilhão; no Brasil, são poucas as que já passaram dos US$ 10 milhões/ano, e a média está bem abaixo dos US$ 1 milhão/ano.
Aqui vale comentar umas correlações elementares, porêm ainda não devidamente analisadas.
- A relação de faturamento entre a maior empresa mundial e a maior empresa nacional de hardware é da ordem de 50:1, e a relação de anos de vida empresarial é de cerca de 10:1.
- A relação de faturamento entre a maior empresa mundial e a maior empresa nacional de software é de ordem de 10:1, e a relação de anos de vida empresarial é de 1:1. Vamos resumir o quadro, com os dados descritos neste item e no anterior, fazendo algumas projeções.
QUADRO 1 - GASTOS EM INFORMÃTICA E TAXAS DE CRESCIMENTO
1984
1990
1999
Dispêndios mundiais com informática (US$ Bilhões)
250
1000
5000
% Crescimento médio anual hardware
15
15
15
% Crescimento médio anual software
30
30
30
% Mercado Nacional / Mercado Mundial
1,5
1,8
2,0
QUADRO 2 - EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA DE SOFTWARE E SERVIÇOS (EM US$ BILHÕES)
1984
1990
1999
1- Gastos Mundiais
100
500
3.000
2- Faturamento da Indústria Mundial
20
150
1.200
3- Gastos Nacionais
1,5
9
60
4- Faturamento da Indústria (sist. Atual)
0.075
0.45
3
5- Indústria Nacional % Indústria Mundial
0.38
0.3
0.25
QUADRO 3 - EVOLUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO RELATIVA DAS INDÚSTRIAS DE SOFTWARE E HARDWARE, NO BRASIL E NO MUNDO
1984
1990
1999
Participação Mundial S/H
0.670
1.000
1.500
Participação Nacional S/H
0.020
0.026
0.031
QUADRO 4 - INDÚSTRIA NACIONAL DE SOFTWARE EQUIPARADA AOS PADRÕES MUNDIAIS
1984
1990
1999
% Faturamento Software Mundo
8.0
15.0
24.0
Faturamento Desejável Brasil (US$ Bilhões)
0.3
2.7
7.0
Necessidade de Aumento da Demanda %
300
500
700
Os números assustam. A continuarmos polemizando sobre o hardware, podemos chegar até mesmo á produtos palpáveis (computadores) competitivos. Mas estaremos longe de sabermos como usá-los. Os números mostram que a distancia nos recursos despendidos com a TECNOLOGIA DO USO comprada da indústria nacional de software aumentará, dramaticamente, salvo se algo for feito, e muito rapidamente.
Novas técnicas, que incluem o uso de Ãcones, processamento de gráficos, reconhecimento de voz e outras, estão em uso comum, no exterior. E nos estamos fora deste mercado
Ironicamente, a PNI está, talvez sem que seus formuladores tenham plena consciência, marginalizando o segmento da informática que reúne os profissionais com maior experiência do mercado, e que, apesar de tudo, ainda podem desenvolver produtos equivalentes aos melhores do mundo, e, portanto, competitivos no Exterior.
E poucos, muito pouco mesmo tem sido feito para fortalecer estas empresas, que possuem tradição no mercado, tecnologia própria e certamente poderiam contribuir para a verdadeira autonomia tecnológica na informática.
Não há como negar que é, no mÃnimo, mais cômodo legislar, regular e anunciar coisas palpáveis, como são os computadores. É mais fácil, também, controlar os resultados de absorção de tecnologia e Ãndices de nacionalização.
Mas, certamente, a se prosseguir nesta linha, não seremos competitivos, a nÃvel internacional, como já o é, por exemplo, o Japão, e estaremos perdendo competitividade justamente no segmento onde temos maior tradição e competência - o SOFTWARE.
É difÃcil legislar sobre o SOFTWARE e serviços, quando ainda existem sérias dÃvidas conceituais sobre como defini-lo juridicamente. Recentemente um representante da ASSESPRO participou de um Congresso na Austrália que visava estabelecer parámetros básicos para uma legislação coerente e meios práticos de proteção é propriedade intelectual dos criadores e produtores de SOFTWARE.
Lembremos, no entanto, que fazer polÃtica não é apenas legislar, ou declarar de público um rol de boas intenções. Fazer polÃtica é, também, acionar mecanismos à disposição do poder público para criar estÃmulos para o desenvolvimento de setores vitais de nossa economia, que em última análise, vão gerar bem estar à população.
A nossa PolÃtica Nacional de Informática é, hoje, uma polÃtica voltada para o HARDWARE, em sua essência. É também defensiva na medida em que busca, através de mecanismos de reserva de mercado, a proteção dos fabricantes.
Vamos apresentar em seguida, algumas sugestões, que no nosso entender, poderiam criar condições para termos uma indústria de informática - no seu conceito mais abrangente - realmente forte e competitiva, com benefÃcios aos usuários e a sociedade em geral, sem abdicarmos de nossa soberania, quer econômica, quer tecnológica.
4.2 - A PNI - O QUE DEVERIA CONTER
-Poder Computacional. Isto é o que vendia computadores antigamente. Os vendedores metralhavam infindáveis estatásticas - quantos milhões de instruções por segundo seu computador podia processar - quantos caracteres de informações podia armazenar, quantas informações unitárias poderia processar simultaneamente.
Mas a ação não está mais no HARDWARE.
Os computadores estão ficando extremamente parecidos - em muitos casos, são produtos de prateleira. As guerras de computadores são hoje travadas em um novo campo de batalha - o SOFTWARE - ou as instruções que dizem ao computador o que fazer, desde processar uma folha de pagamento até a brincar de videojogos.
O SOFTWARE é o que lidera a indústria.
Assim começa um artigo de 27/02/84 de importante revista de negócios estrangeira sobre o SOFTWARE. E é o que acontece no mundo.
Estamos ficando para três, numa área onde sempre fomos competentes. O problema, a nÃvel legal, é como estimular uma atividade estrategicamente importante, geradora de muitos empregos qualificados, e cuja demanda cresce, mesmo em épocas de recessão, se a sua essência é ainda desconhecida? Do que precisa a industria de SOFTWARE e serviços, no Brasil, para deslanchar definitivamente?
A Secretaria Especial de Informática (SEI) tem poucos instrumentos a sua disposição, e a proteção jurÃdica do SOFTWARE é controversa, mesmo nos paÃses desenvolvidos.
Como estas empresas de SOFTWARE e serviços puderam se desenvolver, a ponto de algumas terem abrangência mundial em termos de mercado?
A resposta é simples: elas foram estimuladas por encomendas a seus serviços e produtos, em especial pelo governo e pelas grandes corporações, que verificam a inviabilidade econômica de dimensionar suas equipes técnicas para atender as demandas pelo pico.
Além disso essas empresas, em sua esmagadora maioria, novas no mercado, cuja idade média não ultrapassa 5 a 6 anos, começaram a especializar-se em segmentos de mercado especÃficos. Isto as tornam mais competitivas, capazes de vender mais e, por conseqüência, mais fortes econômica e tecnologicamente.
Essas empresas disputam o mercado com produtos cada vez mais sofisticados e orientados ao usuário, tornando a vida deste mais simples e mais produtiva.
Apesar disto, a demanda de novas aplicações em computador cresce mais do que a oferta, a nÃvel mundial. Em 1980, para cada aplicação em desenvolvimento, existiam 4 na fila de espera, e esta relação aumentou para 4,5:1 em 1981, e vem crescendo 10 a 15% ao ano.
Os grandes fabricantes mundiais de HARDWARE estão encomendando cada vez mais SOFTWARE a empresas independentes do mercado.
Vemos a quebra da postura monolÃtica da lÃder mundial do mercado de computadores, a IBM, para quem a época atual requer cooperação. A IBM deixa de ser altamente integrada e busca parceiros para a condução de seus negócios, desde semicondutores até SOFTWARE. E isto está acontecendo, em realidade. A IBM encomenda SOFTWARE básico para seus computadores a terceiros e comercializa suas aplicações as mais diversas, seja diretamente, seja através de uma rede independente de distribuidores.
Como foi que tudo começou? Criando-se uma demanda. E à isto que falta no mercado nacional. Urge que as empresas estatais, os grandes e pequenos usuários comprem mais das empresas capacitadas a atende-los. Vantagens de natureza fiscal, e mesmo, para organismos de governo, a obrigatoriedade de buscar no mercado nacional soluções para seus problemas de informatização, fortaleceria dezenas, talvez centenas de empresas nacionais, capazes de inclusive brigar por uma fatia palpável de mercado externo.
Os fabricantes nacionais, beneficiados pela reserva de mercado, ao procurarem verticalizar também a produção de SOFTWARE, não tiveram sucesso e, embora existam exemplos de cooperação com empresas de SOFTWARE nacionais, os volumes de encomendas são ainda muito tÃmidos.
O setor precisa, pois, de encomendas, de pedidos, para crescer seu faturamento. Não com reserva de mercado, mas com estÃmulos. É muito importante termos o mercado aberto à s empresas de serviço que aqui geram tecnologia e emprego qualificados, para que elas cresçam e tenham porte para competir lá fora.
Ao levarmos em conta que apenas em 84, o mercado americano demandará US$ 10 bilhões em SOFTWARES prontos, e a taxa de crescimento é de 30% ao ano, e se nos propuséssemos a montar mecanismos de fortalecimento das empresas nacionais, de forma a capacitá-las a conquistar 2% deste mercado, estarÃamos, dentro de 6 anos exportando serviços no valor de US$ 1 bilhão/ano. Numa área onde temos reconhecida competência.
E a indústria de HARDWARE? Poderia ser mais competitiva, atender melhor o usuário? A resposta é SIM, mas não por muito tempo. Enfrentamos hoje um problema de escalas de produção, e a própria reserva de mercado volta-se contra os fabricantes do produto final, as chamadas "casas integradores", pois os periféricos (discos, impressoras, fitas, etc. ...) são muito caros, não sendo difÃcil montar-se uma configuração onde a periferia custe 4 a 5 vezes o preço da unidade central.
DeverÃamos avaliar corretamente a capacidade dos fabricantes de periféricos de produzir em escala adequada e ter preços competitivos e qualidade em padrões internacionais. E por que não deixar que a competição fosse um pouco mais aberta, dentro dos saudáveis princÃpios da livre iniciativa e dos riscos inerentes aos investimentos num regime capitalista, obedecidos os interesses supremos da nação em aqui absorver e desenvolver tecnologia de ponta?
A PNI deve, principalmente, levar em conta o usuário final, comprador dos bens e serviços que a indústria de informática oferece. Ele deve ser ouvido, quanto às suas necessidades e expectativas, e deve ter garantidos, por lei, seus direitos.
Hoje, por desinformação, muitos usuários são levados a fazer escolhas desastrosas, a custos altÃssimos, e os mecanismos legais são lentos e falhos para ampará-lo.
O comprador de equipamentos e serviços de informática deve tomar a decisõo de compra para melhor operar e gerir suas atividades, para aprimorar seus produtos e sua produtividade, para prover seus próprios consumidores de bens e serviços melhores, mais baratos.
Desta forma, estaremos criando condições para o crescimento de nosso parque industrial e de serviços, à medida em que os produtos finais adquiram condições amplas de competitividade nos mercados interno e externo.
O usuário, senhores, é, com freqüência, o mais esquecido elo de todo o processo. Embora a conta final seja de sua responsabilidade, pouco se pensa nele.
É preciso que, com mecanismos de estÃmulo e fomento à indústria de informática, que propugnamos, geremos empresas fortes e competitivas. As que não tiveram condições, não devem ser contempladas com proteção, reservas ou benefÃcios.
5 - A ASSESPRO
A ASSESPRO, entidade de classe que congrega hoje cerca de 200 empresas nacionais de prestação de serviços - casas de SOFTWARE, BUREAUS, consultoras e empresas de ensino em informática, é firme defensora da livre iniciativa e da competência da empresa privada em resolver os problemas de uma economia dinâmica e mutante.
Seus dirigentes e funcionários são, em geral, pessoas com ampla experiência no ramo da informática. Aliás, dentre as associadas da ASSESPRO contam-se inúmeras empresas que existem desde os primórdios de utilização do computador entre nós.
Além do mais, sem legislação protetora e sem qualquer indução de organismos governamentais, seus associados criaram e aprovaram um CÓDIGO DE ÉTICA, que dá um apreciável conjunto de garantias ao usuário final de seus serviços, inclusive o de representar à Associação contra uma associada que não esteja lhe atendendo conforme contratado.
Os associados da ASSESPRO crescem, num regime de livre competição entre as empresas privadas do ramo, mas sofrem concorrências desleais de empresas estatais e conglomerados financeiros, que oferecem seus serviços, à s vezes de forma indiscriminada, usando pressões de natureza polÃtica ou econômica e até mesmo preços abaixo do custo, em mercados fora de suas atribuições especÃficas.
Ou seja, além de fecharem seus próprios mercados, ainda invadem o pouco que nos resta, em competição desproporcional. Daà a faixa de 5% ocupada pelos prestadores de serviços. Urge reverter estas tendências. Uma empresa de serviço privada não dispõe e carta patente, como um banco, ou de uma legislação que de monopólio a uma companhia estatal. Não é justo nem razoável a permanência deste "status quo".
Existem exemplos esporádicos de órgãos governamentais e conglomerados financeiros que estão começando a acordas para as vantagens de usar serviços de empresas especializadas. Mas o começo é muito tÃmido, e a velocidade precisa aumentar.
É vital para a nossa informática que, num perÃodo máximo de 4 anos, as encomendas de serviços de informática à s empresas privadas do setor saltem dos atuais 5% para algo em torno de 30% dos dispêndios do mercado de software e serviços.
Aà teremos para estas empresas, na ocasião, um mercado da ordem de US$ 2 bilhões de dólares/ano, o suficiente para garantir a existência de algumas empresas genuinamente fortes, competitivas a nÃvel internacional, como ocorre, alias, com as empresas nacionais de engenharia. Sem cartáis, sem proteções. Com estÃmulos e com encomendas.
6 - CONCLUSÃO
O Brasil enfrenta hoje, uma crise de sérias proporções. Muitas são suas causas, externas ou internas, e não cabe, nesta exposição, analisá-las.
Constatamos, apenas, que precisamos buscar superar a crise como um todo, retomar o crescimento, tornar a sociedade mais justa e mais eqüitativa a distribuição das riquezas que possuÃmos e geramos neste enorme paÃs.
E isto tudo deve acontecer com a preservação de nossa verdadeira soberania.
Mas não vamos chegar lá com soluções clássicas. Há que se utilizar os talentos disponÃveis - que não são poucos - para recuperarmos o tempo perdido e mesmo sairmos na frente em determinados ramos de atividade.
Sobretudo, é preciso ousar. Para tomar a decisão e implementar o fortalecimento da indústria de software e serviços muitos conceitos terão de ser postos por terra. O primeiro deles é o de que a produção artesanal de software pode prevalecer ainda por muitos anos como alternativa viável de custos. Outro é o de que software ou se produz dentro de casa ou se ganha do fabricante - como qualquer produto, ele tem um custo e deve ter uma garantia, e pode ser comprado por pessoal qualificado. Igualmente importante é considerarmos o parque de máquinas instaladas nos boreais de serviço como estoque de hardware disponÃvel para o mercado. Os formuladores de polÃticas federais e estaduais deveriam considerar estes recursos de hardware e software como uma disponibilidade, antes de fazer investimentos.
Se repensarmos a nossa informática, levando em conta todos os seus aspectos, e, principalmente, conseguirmos liderar as forças produtivas hoje atadas a uma polÃtica que contempla apenas um de seus setores, estaremos dando um enorme passo na direção da verdadeira independência econômica e tecnológica do Brasil.



